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Kaminagai, Tadashi

(1899, Hiroshima, Japão - 1982, Paris, França) Determinado a estudar pintura, em 1927 viajou para Paris. Já nos anos 30, participou de salões parisienses: Nacional de Belas Artes, das Tulherias e de Outono. Ligou-se à Escola de Paris, principalmente a Foujita, Bonnard, Derain, Chagall, Braque e Matisse. Em 1940 voltou ao Japão, e no ano seguinte viajou para o Brasil. Retornou ao Japão em 1955. Fixou-se definitivamente em Paris dois anos depois. No Brasil, participou da Bienal de São Paulo (1951 e 1953) e do Salão Nacional de Belas Artes (medalha de prata em 1942). Sobre sua presença no país, escreveu José Roberto Teixeira Leite: "Exerceu profunda influência não somente sobre um grupo de então jovens, a hoje famosos artistas japoneses, como também sobre alguns pintores brasileiros que lhe assimilavam o estilo num ou noutro momento de sua evolução." Em 1987, a Galeria Marion, de Tóquio (Japão), realizou uma retrospectiva de sua obra. Entre 1994 e 1995, integrou a mostra da Coleção Unibanco, na Casa da Cultura de Poços de Caldas (MG) e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Referências: Artistas pintores no Brasil (São Paulo, 1942), de Teodoro Braga; História geral da arte no Brasil (Instituto Walther Moreira Salles/Fundação Djalma Guimarães, 1983), coordenação de Walter Zanini; Seis décadas de arte moderna na coleção Roberto Marinho (Pinakotheke, 1985), texto sobre Kaminagai de autoria de Ruy Sampaio; 100 obras Itaú (MASP, 1985); 150 anos de pintura no Brasil: 1820/1970 (Ilustrado pela coleção Sergio Fadel, Colorama, 1989), de Donato Mello Júnior, Ferreira Gullar e outros; Cronologia das artes plásticas no Rio de Janeiro: 1816-1994 (Topbooks, 1995), de Frederico Morais; Coleção Aldo Franco (Pinakotheke, 2000), de Jacob Klintowitz.

Uma dispersão que favorece o Brasil O ano de 1940 foi decisivo para a pintura brasileira, não por eventos especiais registrados em nosso país, mas pela instabilidade criada na Europa e na Ásia em conseqüência da Segunda Guerra Mundial. Após meses de violento conflito que se espalhou por toda Europa, e com o Japão se preparando para entrar na guerra em apoio a nazistas e fascistas, o ambiente no velho mundo ficou extremamente tenso e desapareceram as esperanças de uma solução rápida que restabelecesse a paz. O Brasil, separado da conflagração pelo vasto oceano e abrigando, desde o final do Século 19, levas de imigrantes vindos de todas as partes do universo, tornou-se um refúgio seguro para quem necessitasse de abrigo. Era uma nação cosmopolita, um pequeno e diversificado mundo, como se fosse um mostruário vivo dos vários povos que habitam o planeta, aqui vivendo em completa harmonia, sem preconceitos, sem constrangimentos e sem ódios raciais. Se de todo mal, por pior que seja, é possível extrair algum bem, o Brasil foi favorecido com a Grande Guerra, pelo fato de que uma leva de cientistas, escritores e artistas, fugindo da catástrofe, por aqui aportaram, trazendo seus conhecimentos, marcando sua presença indelével nas atividades que lhes diziam respeito, e fazendo discípulos que lhes continuaram a obra, mesmo poucos que, ao fim do conflito, voltaram aos países de origem. Presença sempre bem-vinda Podemos contar, entre os pintores que se instalaram no Brasil nessa época, o húngaro Arpad Szenes (1897-1879); sua mulher, a portuguesa, naturalizada francesa, Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992); outro húngaro, Lazlo Meeitner (1900-1968); o espanhol Timóteo Perez Rúbio (1896-1977); dentre os escritores, Otto Maria Carpeaux (1900-1978) e Stefan Zweig (1881-1942). Da mesma forma, a guerra concorreu para a presença no Brasil e outros talentos japoneses, que aqui se revelariam mais tarde, como Tomie Ohtake (1913) e Tikashi Fukujima (1920). Desta diáspora, participou também Tadashi Kaminagai, já com alguma experiência como pintor, e bem relacionado dos meios artísticos da Europa, o qual, impedido de permanecer na França, viajou de volta ao Japão, de onde tratou de sair rapidamente, a caminho do Brasil, antes que as fronteiras se fechassem por completo. Um sacerdote rebelde Tadashi Kaminagai nasceu em 1899 em Hiroshima (Japão) e faleceu em 1982 em Paris (França). Se houvesse aceitado pacificamente o destino que lhe estava traçado, teria passado toda sua vida dentro de um mosteiro budista, como sacerdote, pois seu pai o havia separado, dentre os filhos, para seguir a vida religiosa. Com efeito, aos 14 anos foi encerrado em um mosteiro em Kobe (Honshu-Japão) onde recebeu iniciação e, anos mais tarde, chegou a ser enviado à Indonésia como missionário. Não era essa a vida que desejava e Kaminagai sentia vem isso. Desde criança, aplicou-se ao desenho, o que fazia com vontade e com bons resultados. Sabia que, se pudesse chegar a um grande centro artístico, como Paris, sua vida iria mudar completamente. Assim, em certo momento, decidiu quebrar as regras de obediência familiar, tradicionais na vida japonesa, e rompeu com a carreira que o pai lhe destinou, viajou a Paris e lá arrumou emprego em uma restauradora de objetos de arte, enquanto, nas horas vagas, se aplicava à pintura de quadros. Primeiro a moldura, depois a pintura As portas iriam abrir-se para ele por caminhos transversos. Sentindo problemas na colocação de molduras novas em quadros antigos, Kaminagai realizou uma série de experiências com pátina, até chegar a um tipo de aplicação que dava um efeito de envelhecimento bastante convincente. Levou, então, uma amostra ao pintor Tsugoharu Foujita (1886-1968), que morava também em Paris, e com quem fizera amizade. Este, por sua vez apresentou-o ao pintor Kees Van Dongen, que passou a encomendar-lhe as molduras que precisava. Outros artistas, entre eles Henri Matisse (1869-1954), também fizeram uso da nova moldura patinada. Mas foi o escritor e marchand Ambroise Vollard (1939-1968) que lhe tornou-o conhecido no mercado de arte parisiense, quando passou a utilizar regularmente suas molduras patinadas, aplicando-as em quadros impressionistas. Assim relacionado no mercado, Kaminagai sentiu-se animado em inscrever alguns de seus quadros em Salões parisienses, até que, em 1940, a guerra o obrigou a viajar para o Japão e, de lá, mais que depressa, seguir para o Brasil, com aquilo que conseguiu reunir. Terra à vista Chegou ao Rio de Janeiro sem dinheiro e com alguns pertences, alugando um quarto de pensão, onde se instalou para reiniciar a vida. Se não tinha bens, tinha ao menos uma carta de recomendação, endereçada a Cândido Portinari, que lhe encaminhou os primeiros passos na nova terra. Depois, outro pintor, Massami Tanaka, pediu-lhe que desse aulas de desenho e pintura ao seu filho, Flávio Shiró Tanaka. Instalando uma molduraria em Santa Teresa, centro de atividade artística no Rio de Janeiro, passou a se relacionar com outros pintores residentes no bairro, muitos fugindo da guerra, como ele. E assim, um ano após sua chegada, já participava do Salão da Escola Nacional de Belas Artes, alternando-se, daí em diante, entre exposições coletivas e mostras individuais. O clima do Rio de Janeiro e o ambiente artístico em que se achava imerso lhe fizeram muito bem e Kaminagai permaneceu aqui até 1954, até que decidiu retornar ao Japão, onde se casou e instalou seu novo ateliê. Desde então, e até a sua morte, manteve ateliês no Japão, na França e no Brasil, alternando-se entre os três países. E foi quando estava em París, que veio a falecer, no ano de 1982. Sem desmerecimento à boa qualidade de sua pintura, a maior importância de Tadashi Kaminagai, para o Brasil, está no incentivo proporcionado a jovens principiantes da colônia, como Flávio Shiró Tanaka, Manabu Mabe e Tikashi Fukujima. (Texto de Paulo Victorino)